4

Aproximei-me.
A minha respiração foi ficando cada vez mais ofegante. Senti medo mas ao mesmo tempo tinha uma enorme curiosidade em saber o que provocava aquele estranho barulho.
E foi assim que o vi. Era pequeno, frágil e estava ferido.
Continuei a aproximar-me com cautela e quando cheguei à sua beira, ele olhou para mim com cara de sofrimento. Era...um pequeno cachorro.
Peguei nele carinhosamente e levei-o para casa. Tratei-o. Toda a minha família se encantou com o pequeno cachorro e por momentos consegui esquecer o meu casamento arranjado.
Embora estivesse ferido, o cachorro estava muito bem tratado logo significava que tinha um dono. Não me podia afeiçoar a ele, pois sabia que quando encontrasse o dono teria de o devolver.
Neste momento só conseguia pensar no pequeno ser que eu tinha socorrido e a pergunta que eu fazia a mim própria era "De quem será este cachorro?"...

3

Sem eu me aperceber tinha caído a noite em todo o reino e era certo que já tinham dado pela minha falta. Já conseguia imaginar o que diria Nia assim que eu chegasse a casa.
Mas isso não me interessa… a única coisa que me preocupa agora é o casamento arranjado. Sempre que pensava no meu casamento, em criança, imaginava uma cerimónia simples nos jardins da mansão onde vivo com as pessoas mais importantes da minha vida e… com um homem que eu amasse e que me correspondesse esse amor. Mas agora as coisas mudaram, já não sou a mesma criança que sonhava com o final feliz dos contos de fadas, mas antes uma jovem comprometida com um estranho.
Lentamente, e contrariada, ponho-me a caminho de casa. A escuridão ocultava agora parte das coisas belas que eu observava nos meus passeios matinais.
Estou prestes a passar os portões quando me detenho. Um arrepio gelado percorre o meu corpo, quando oiço um som vindo do bosque… uma voz talvez… Alterno o meu olhar entre a mansão e o bosque. Não devia afastar-me, mas sinto que algo ou alguém me chama no meio daquela escuridão. Afasto-me novamente em direcção ao bosque. Aquela voz melodiosa parece cantar para mim… porque me soa tão familiar?
Uma luz surge atrás de mim, despertando-me dos meus pensamentos.

2

- Não! - Disse Nia severamente. - Não podemos adiar mais.
- Não me vou casar com um estranho. Não quero - insisti.
- Ilnarah, já tivemos esta conversa. É a única solução e tu sabe-lo.
- Sei que é apenas um palpite de possível e horrivel solução. Quer dizer, como é que um casamento entre mim e um tal filho qualquer de um outro conde qualquer de uma qualquer outra terra nos vai ajudar? - Questionei, mais em forma de protesto e revolta do que propriamente dúvida. - Quer dizer, como é que isso vai salvar alguém? Quanto mais o mundo.
- As coisas mudaram Ilnarah - disse Nia, segurando-me no rosto e fazendo-me parar de andar de um lado para o outro. A sua voz aproximava-se cada vez mais do sussurro, como se receasse que o simples facto de mencionar o mal o trouxesse mais depressa até nós. - O horizonte escureceu. O mal aproxima-se e sozinhos não temos hipótese de sobreviver. Precisamos de unir esforços, de toda a ajuda possível.
Suspirei.
Encarei o chão.
Sentia-me cada vez mais encurralada. Percebia o que Nia queria dizer, e ao mesmo tempo não percebia. Não percebia como é que todos se limitavam a esse tipo de soluções tão... primitivas.
- Não queria que fosse assim - continuou, obrigando-me a encara-la.
- Não estamos sozinhos. Leanne e Sheeb já são casadas - "e por sorte com pessoas que amam", pensei para mim, desejando tal sorte. - Não estamos sozinhos. Já temos dois reinos para nos ajudarem. E certamente que também eles terão mais aliados, que os vão ajudar. E visto que eles nos ajudam estamos protegidos. Que diferença é que faz mais um?
- Pode fazer toda a diferença.
- "Pode" ... - Repeti.
Nia olhou-me nos olhos. Beijou-me na testa e saiu, deixando-me sozinha no quarto.
Percebi que não havia nada a fazer. Pelo menos nada que eu estivesse a ver no momento.
Olhei pela janela com vista para o bosque e saí do quarto. Saí de casa. Saí pelos portões que nos cercavam e corri. Corri para o bosque.
Corri até os meus músculos não poderem mais. Mas mesmo assim eu corri. E continuei a correr.
Parei.
Fechei os olhos por um momento e tentei controlar a respiração. Ofegante, olhei à volta do meu campo de visão. Podia ver e ouvir os pássaros e as árvores. Lá ao longe estava um pequeno grupo de veados a passar naturalmente. Aqui e ali um esquilo. E lá ao perto, o rio a correr.
Dei meia volta, sem tirar os olhos do horizonte. Tornava-se cada vez mais escuro até que, atrás de mim, era negro.

1

Era um dia normal, numa manhã normal. Tudo parecia perfeito! Na verdade, até ao momento, tudo estava óptimo!
Contudo, para se perceber do que falo, tenho que explicar o que sucedeu anteriormente.


O meu nome é Ilnarah, uma jovem adolescente que vive em FourWinds, um reino muito longe de tudo o que é conhecido. Sou de uma nobre família, muito influente neste reino. O meu pai, conde Ramon criou-me sozinho, assim como às minhas três irmãs, Leanne, Sheeb e Willie. A nossa mãe, Althea, faleceu dois anos após a minha irmã mais nova nascer, a pequena Willie. Apesar de todos os contratempos vividos, somos uma família e, sobretudo, somos felizes. Temos algumas pessoas que nos ajudam com a casa, principalmente, quando o nosso pai decide percorrer o país para dar ajuda a quem necessita. Nia é como se fosse uma mãe para nós e, o facto de ter a idade que a nossa mãe teria se estivesse entre nós, faz-nos ser mais chegadas.
E aqui está uma pequena descrição dos nossos entes mais queridos.
Agora, falemos de algo mais sério . . .

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