7

Tentei acalmar Ionadh mas ele continuava a ladrar mostrando a Colin o lugar onde eu me encontrava. Tentei levantar-me de novo mas sem sucesso. Tinha uma dor no tornozelo que aumentava se fizesse esforços. A verdade é que ser encontrada por Colin naquele estado não me agradava nada.
Passados alguns momentos, Colin encontrou-me. Quando me viu a sua expressão mudou radicalmente. Naquele momento a face dele mostrava arrependimento e culpa. Ao chegar à minha beira disse:
-Ilnarah peço imensa desculpa. Não queria de nenhuma forma pertubá-la desta maneira.
- Colin, está tudo bem - respondi eu. - Também peço desculpa pelo que eu disse mas o que é certo é que eu não quero casar. Não que eu tenha nada contra si mas sim porque não acredito num casamento sem amor.
Colin estendeu-me a mão para me ajudar a pôr a pé. Quando me levantei ele pôs o seu braço à volta da minha cintura para me auxiliar a caminhar e disse:
- Como eu a percebo!
A sua cara agora mostrava um sofrimento enorme mas eu não quis pertubá-lo com perguntas. Continuamos a andar até que ele parou e disse:
- Bem já que vamos casar quer queiramos quer não queiramos, acho que é melhor começarmos de novo.
Não me contive e esbocei um sorriso. Aquele homem, de repente, tinha-se transformado!
 Tornou-se...gentil. Neste momento, Colin tinha um sorriso nos lábios que me deixava com confiança.
- Realmente começamos mal - respondi eu também com um sorriso.
Ficamos a olhar um para o outro até que Ionadh ladrou. Este estava com a língua de fora à espera de alguma atenção. Colin fez um mimo na cabeça de Ionadh e este lambeu-lhe a mão, o que nos fez rir desalmadamente aos dois.
Será que é o início de uma linda amizade?!

6

Caminhamos em silêncio durante algum tempo. Começava a ficar incomodada com a situação.
- Então... Não aprecia um agradável diálogo ou é daqueles indivíduos que não se sentem à vontade com uma presença feminina? – Interroguei, tentando quebrar o gelo.
Encarou-me de um modo tão frio que me deixou totalmente arrepiada.
- Perdão! Não pretendia ofendê-lo... – Tentei justificar-me.
- Apreenda algo, menina Ilnarah! Aceitei desposá-la pois o meu pai julga ser o melhor. Eu não planeava casar-me tão repentinamente, muito menos consigo! Por isso, não tente impressionar ou ser agradável. Nada disso me importa! Fui claro? – Vociferou, apontando-me o dedo indicador como se isso intensificasse o seu mau humor.
Fiquei estupefacta com a sua reação. Um novo sentimento avassalou-me, a raiva.
- Diga-me “algo”, menino Colin. Pensa que EU ambiciono unir-me com alguém que não conheço? Pensa que almejo usufruir de um matrimónio onde não subsista amor? NÃO! Mas estou a tentar concretizar um desejo do meu pai. – Afirmei calmamente mas com uma voz severa.
A frieza do seu olhar deu lugar a surpresa. Ficou perplexo com a minha refutação. Aliás, até eu. Nunca detive tal conduta. Sou conhecida como uma jovem amável, paciente, prestativa e benevolente.
Envergonhada por ter deixado escapar a minha frustração e contrariedade, corri. Corri tanto que até estava a ficar sem fôlego. Só quando tropecei numa raiz saliente e caí é que estagnei.
Tentei levantar-me mas acabei por cair novamente.
- E eu a pensar que o meu dia não poderia piorar! – Resmoneei entre dentes, esforçando-me para não deixar escapulir-se um grito de dor que ameaçava libertar-se.
- Ilnarah! – Chamava Colin.
Ionadh correu até mim e presenteou-me com uma molhada lambidela no rosto. Após avaliar o meu estado ladrou como se estivesse a chamar por alguém, a solicitar auxílio.

5

Adoro animais!
Aliás, adoro a Natureza e a sua esplêndida e brilhante imaginação. Fascina-me! Não só pela imensidão de sensações capaz de nos transmitir, como também pelos companheiros que podemos encontrar.
O cão é sem dúvida dos meus animais preferidos. É incrível como conseguem ser-nos mais fiéis do que nós mesmos! ... Escusado será falar dos outros...
Raramente acredito no acaso, se é que alguma vez acontece, e por isso desde o dia em que encontrei o Ionadh, o cachorro, que estou convencida de que não foi por acaso.
E não foi, de facto.
Ionadh foi como ... ... ... uma mudança na minha vida.
Algo que nem a minha mais profunda criança interior com a sua inimaginável imaginação poderia algum dia imaginar.

Quando encontrei o cachorro à entrada do bosque não me queria afeiçoar a ele mas... Pergunto, será isso possível?

De início tentei fazê-lo, e tentei encontrar o dono.
Fiz um desenho dele (outra das minhas paixões, o desenho) numa folha e percorri o maior número de famílias que consegui. Mas ninguém parecia alguma vez tê-lo visto. Facto um pouco estranho, a meu ver, dado que normalmente na comunidade se sabe tudo... Às vezes até demais.
Ninguém o conhecia nem ninguém o procurou. Por isso, passadas duas semanas, dei-lhe um nome.
Já estava comigo há um mês e meio. E rapidamente se tornou um verdadeiro amigo e companheiro.
Até presenciou um dos mais esperados (de certo não por mim!) momentos dos últimos tempos: o dia em que eu e o meu suposto futuro ... ahm ... marido ... íamos ser apresentados.
Pfff... Fácil de imaginar o meu entusiasmo!
Mas não me sentia tão mal nem tão sozinha e incompreendida agora que tinha Ionadh do meu lado.
Numa manhã quente e solarenga de fim de Primavera, eu e a minha família esperávamos pelos convidados.
A casa estava arrumada e limpa ainda de fresco. A mesa da sala de jantar posta com dois lugares a mais e todos vestiam roupas mais formais do que num dia normal. Eu inclusive, obviamente contrariada. Não conseguia partilhar do entusiasmo de nenhum deles, e para meu grado Ionadh partilhava da mesma opinião que eu, arrancando-me finalmente um sorriso.
Também ele tinha sido sujeito a um banho perfumado e estava trancado dentro de casa para não se sujar ... ou à casa, suponho.
Deitado no chão ao lado dos meus pés, levantou subitamente a cabeça e começou a correr e a ladrar em direcção à entrada. Subiu a um banco e espreitou pela janela.
Sempre curioso!
Percebemos que deviam estar a chegar, e também nós começamos a ouvir o som da carruagem e o trotar dos cavalos sobre o chão de pedra.
O meu pai levantou-se, muito entusiasmado e com um enorme sorriso a brilhar-lhe no rosto, e ajeitou as roupas.
Eu contentei-me em revirar os olhos.
- Robert - chamou o meu pai.
O mordomo fez-lhe sinal com a mão, dando a entender que não precisava de dizer mais nada.
Aproximou-se da porta e segurou o puxador pacientemente à espera que os convidados se aproximassem.
Abriu-a.
- Sejam bem vindos à casa Klein, família Seidel - cumprimentou Robert.
- Muito bom dia - respondeu um senhor não muito alto, com uma barriguinha arredondada e com um sorriso simpático, que supus ser o pai do rapaz que o acompanhava.
- Façam o favor - e apontou para dentro.
- Muito obrigado - respondeu o senhor.
Entraram.
Robert recolheu-lhes os casacos e o chapéu do senhor baixinho e colocou-os no bengaleiro.
- Podes ir Robert - disse o meu pai à medida que se aproximava deles. - Eu trato dos nossos convidados. Ramon Klein - cumprimentou sorridente com o braço esticado.
- Charles Seidel - apresentou-se o senhor correspondendo ao aperto de mão. - E este é o meu filho, Colin.
- Ah! Prazer em conhecer-te meu rapaz - e cumprimentou-o da mesma forma. E desta vez já podia olhar em frente. Ele e o rapaz eram quase da mesma altura.
Colin mostrou um pequeno sorriso, que não me convenceu.
- O prazer é meu - respondeu.
Ao contrário do pai, Colin era alto e muito elegante, de cabelo liso com alguns centímetros e escuro como carvão, olhos do mesmo tom e pele clara.
Apesar de tudo, não podia negar a sua beleza.
- Venham. Por aqui - e seguiram na nossa direcção. Senti-me subitamente nervosa e todas nos levantamos. Ionadh já estava outra vez ao meu lado, depois de ter cheirado os convidados. O meu pai apresentou as minhas irmãs e Nia primeiro, e eu por último. - E por fim, e o motivo da vossa presença, a minha filha Ilnarah.
Tentei forçar um sorriso.
Charles deu-me um beijo na mão, muito sorridente e com aquele bigode farfalhudo e acinzentado a fazer-me comichão, e a seguir foi a vez do filho. Mas ao contrário do pai ele estava muito sério a olhar para mim, o que fez desaparecer o meu sorriso novamente.
O que honestamente até foi um alívio. Devia estar ridícula, e já me doíam as bochechas!
O meu pai aproveitou o almoço para conhecer melhor a família Seidel, principalmente Colin.
Eu agradeci por ninguém se dirigir a mim e por não ter tido de falar com ninguém.
Mas no final do almoço fomos para o terraço e os nossos pais tiveram a brilhante ideia de nos sugerirem um passeio a sós pelos nossos terrenos. "Mas à nossa vista. Terão muito tempo para estarem a sós depois", riam eles. Nenhum de nós correspondeu ao entusiasmo.
Sem o conhecer, gostei dessa reacção da parte de Colin.
Começamos a andar em direcção aos jardins, com Ionadh a correr à nossa frente, obviamente feliz por se ver em liberdade e deixar o pelo castanho brilhante ligeiramente comprido esvoaçar ao vento.

4

Aproximei-me.
A minha respiração foi ficando cada vez mais ofegante. Senti medo mas ao mesmo tempo tinha uma enorme curiosidade em saber o que provocava aquele estranho barulho.
E foi assim que o vi. Era pequeno, frágil e estava ferido.
Continuei a aproximar-me com cautela e quando cheguei à sua beira, ele olhou para mim com cara de sofrimento. Era...um pequeno cachorro.
Peguei nele carinhosamente e levei-o para casa. Tratei-o. Toda a minha família se encantou com o pequeno cachorro e por momentos consegui esquecer o meu casamento arranjado.
Embora estivesse ferido, o cachorro estava muito bem tratado logo significava que tinha um dono. Não me podia afeiçoar a ele, pois sabia que quando encontrasse o dono teria de o devolver.
Neste momento só conseguia pensar no pequeno ser que eu tinha socorrido e a pergunta que eu fazia a mim própria era "De quem será este cachorro?"...

3

Sem eu me aperceber tinha caído a noite em todo o reino e era certo que já tinham dado pela minha falta. Já conseguia imaginar o que diria Nia assim que eu chegasse a casa.
Mas isso não me interessa… a única coisa que me preocupa agora é o casamento arranjado. Sempre que pensava no meu casamento, em criança, imaginava uma cerimónia simples nos jardins da mansão onde vivo com as pessoas mais importantes da minha vida e… com um homem que eu amasse e que me correspondesse esse amor. Mas agora as coisas mudaram, já não sou a mesma criança que sonhava com o final feliz dos contos de fadas, mas antes uma jovem comprometida com um estranho.
Lentamente, e contrariada, ponho-me a caminho de casa. A escuridão ocultava agora parte das coisas belas que eu observava nos meus passeios matinais.
Estou prestes a passar os portões quando me detenho. Um arrepio gelado percorre o meu corpo, quando oiço um som vindo do bosque… uma voz talvez… Alterno o meu olhar entre a mansão e o bosque. Não devia afastar-me, mas sinto que algo ou alguém me chama no meio daquela escuridão. Afasto-me novamente em direcção ao bosque. Aquela voz melodiosa parece cantar para mim… porque me soa tão familiar?
Uma luz surge atrás de mim, despertando-me dos meus pensamentos.

2

- Não! - Disse Nia severamente. - Não podemos adiar mais.
- Não me vou casar com um estranho. Não quero - insisti.
- Ilnarah, já tivemos esta conversa. É a única solução e tu sabe-lo.
- Sei que é apenas um palpite de possível e horrivel solução. Quer dizer, como é que um casamento entre mim e um tal filho qualquer de um outro conde qualquer de uma qualquer outra terra nos vai ajudar? - Questionei, mais em forma de protesto e revolta do que propriamente dúvida. - Quer dizer, como é que isso vai salvar alguém? Quanto mais o mundo.
- As coisas mudaram Ilnarah - disse Nia, segurando-me no rosto e fazendo-me parar de andar de um lado para o outro. A sua voz aproximava-se cada vez mais do sussurro, como se receasse que o simples facto de mencionar o mal o trouxesse mais depressa até nós. - O horizonte escureceu. O mal aproxima-se e sozinhos não temos hipótese de sobreviver. Precisamos de unir esforços, de toda a ajuda possível.
Suspirei.
Encarei o chão.
Sentia-me cada vez mais encurralada. Percebia o que Nia queria dizer, e ao mesmo tempo não percebia. Não percebia como é que todos se limitavam a esse tipo de soluções tão... primitivas.
- Não queria que fosse assim - continuou, obrigando-me a encara-la.
- Não estamos sozinhos. Leanne e Sheeb já são casadas - "e por sorte com pessoas que amam", pensei para mim, desejando tal sorte. - Não estamos sozinhos. Já temos dois reinos para nos ajudarem. E certamente que também eles terão mais aliados, que os vão ajudar. E visto que eles nos ajudam estamos protegidos. Que diferença é que faz mais um?
- Pode fazer toda a diferença.
- "Pode" ... - Repeti.
Nia olhou-me nos olhos. Beijou-me na testa e saiu, deixando-me sozinha no quarto.
Percebi que não havia nada a fazer. Pelo menos nada que eu estivesse a ver no momento.
Olhei pela janela com vista para o bosque e saí do quarto. Saí de casa. Saí pelos portões que nos cercavam e corri. Corri para o bosque.
Corri até os meus músculos não poderem mais. Mas mesmo assim eu corri. E continuei a correr.
Parei.
Fechei os olhos por um momento e tentei controlar a respiração. Ofegante, olhei à volta do meu campo de visão. Podia ver e ouvir os pássaros e as árvores. Lá ao longe estava um pequeno grupo de veados a passar naturalmente. Aqui e ali um esquilo. E lá ao perto, o rio a correr.
Dei meia volta, sem tirar os olhos do horizonte. Tornava-se cada vez mais escuro até que, atrás de mim, era negro.

1

Era um dia normal, numa manhã normal. Tudo parecia perfeito! Na verdade, até ao momento, tudo estava óptimo!
Contudo, para se perceber do que falo, tenho que explicar o que sucedeu anteriormente.


O meu nome é Ilnarah, uma jovem adolescente que vive em FourWinds, um reino muito longe de tudo o que é conhecido. Sou de uma nobre família, muito influente neste reino. O meu pai, conde Ramon criou-me sozinho, assim como às minhas três irmãs, Leanne, Sheeb e Willie. A nossa mãe, Althea, faleceu dois anos após a minha irmã mais nova nascer, a pequena Willie. Apesar de todos os contratempos vividos, somos uma família e, sobretudo, somos felizes. Temos algumas pessoas que nos ajudam com a casa, principalmente, quando o nosso pai decide percorrer o país para dar ajuda a quem necessita. Nia é como se fosse uma mãe para nós e, o facto de ter a idade que a nossa mãe teria se estivesse entre nós, faz-nos ser mais chegadas.
E aqui está uma pequena descrição dos nossos entes mais queridos.
Agora, falemos de algo mais sério . . .

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